O papel dos agentes de folk é
traduzir os códigos indecifráveis às pessoas menos letradas, os significados de
mensagens veiculadas pelos meios de comunicação de massa, a pessoas que não
decifram os códigos da cultura de elite e transmitir a informação decodificada de
maneira acessível e inteligível.
A folkcomunicação é, por natureza e
estrutura, um processo artesanal e horizontal, semelhante em essência aos tipos
de comunicação interpessoal já que suas mensagens são elaboradas, codificadas e
transmitidas em linguagens e canais familiares a audiência, por sua vez
conhecida psicológica e vivencialmente pelo comunicador, ainda que dispersa
(BELTRÃO, 1980, p.28).
Assim, diferentemente do agente de
folk, o trabalho do folkcomunicador é ser um decifrador de códigos, que
consegue decodificar os códigos da cultura popular de determinada localidade ou
região, além de recodificá-los, em um novo sistema de códigos e sinais, considerando
o contexto vivencial do emissor e do receptor, tornando a mensagem inteligível à
audiência. Porque do emissor e do receptor? Porque uma palavra pode mudar de
sentido de uma de uma região a outra, ou adquirir novos significados, assim,
uma palavra que tem um determinado sentido no contexto do emissor, pode não
significar nada ao receptor, se este não conhece o contexto do emissor e suas
determinações. Assim, é necessário a re-significação com a utilização de outro sistema
de códigos inteligível para o público alvo. Explico: o símbolo da cruz suástica
só significa àquele que conhece aquele símbolo e a carga simbólica expressa por
intermédio dele, além de conhecer a realidade contextual do seu surgimento, ou seja,
das condições de produção do discurso daquele símbolo; assim o Folkcomunicador
é conhecedor do profundo significado do símbolo em sua realidade contextual, o
peso semântico que tem aquela imagem, ou seja, caso contrário, o código
imagético torna-se indecifrável.
Em função da estrutura social
discriminatória mantida em nações como a nossa, a massa camponesa, as
populações marginalizadas urbanas e até mesmo extensas áreas proletárias ou de
subempregados se comunicam através de um vocabulário escasso e organizado em
significados funcionais próprios dentro dos grupos. Quando se pretende
transmitir uma mensagem a esses indivíduos, e especialmente quando seu conteúdo
insere novo sistema de valores e conceitos, como no caso de campanhas mundanistas,
é preciso “traduzir-lhes” a idéia, adequando-a aos esquemas habituais de
valoração dos destinatários. O líder comunicador de folk é um tradutor que não
somente sabe encontrar palavras como argumentos que sensibilizam as formas
pré-lógicas que, segundo Levy Bruhl, Bastide, Malinowsky e outros cientistas
sociais, caracterizam o pensamento e ditam a conduta desses grupos (BELTRÃO,
1980, p. 37-38, grifo nosso).
Ao decifrar os códigos, são
esperados resultados, o feedback, o retorno, a ação do receptor em favor do
emissor. Porém, se o receptor compreender além dos códigos, que está sendo
dominado, que está sendo ludibriado, pode responder com um contra-discurso
violento e agressivo, mas através de uma linguagem conotativa, simbólica,
através, por exemplo, de representações simbólicas, em uma prática cultural, e
às vezes não inteligível ao emissor, em muitos contextos de repressão. Quanto
mais agressivo o governo opressor, quanto mais ameaçador, mais indecifrável é o
código, pois pretende ser inteligível somente a um ou determinados receptores,
não sendo inteligível ao dominador. Por isso, a folkcomunicação engloba os
sistemas de comunicação popular existente em todas as culturas. São diferentes sistemas
de comunicação popular, cuja teoria pode ser aplicada em outras realidades verificando
a alta comunicabilidade da cultura popular de outros povos, decifrando códigos
e linguagens antigos, ou em épocas de repressão, ou em situações de terceiro
mundo, em que a comunicabilidade acontece através de um sistema de códigos
próprio daquela região, inteligível apenas a um grupo seleto de indivíduos
daquele sistema social, ou aos habitantes daquela localidade, região ou nação,
dependendo da importância que aquela informação, que está sendo veiculada, tem
para aquele determinado contexto vivencial.
Assim, queremos demonstrar, com
isso, que, no sistema de comunicação popular há várias variáveis que devem ser
consideradas, além do imaginário popular, o sistema de representações
simbólicas e as práticas culturais, a valoração dos bens simbólicos, além do habitus,
modus operandi e modus vivendi e o ethos social de determinada comunidade. São categorias
sociais de Bourdieu que interferem no processo comunicacional e que, se desconsiderados,
conseqüentemente, a mensagem não alcançara seu objetivo, ou seja, o feedback.
Nas práticas culturais, as
representações simbólicas dão conta de realizar esse processo de expressão
informativa, interpretativa e opinativa popular, que se realizam através de linguagens
e códigos inteligíveis àquele grupo social. Porém há aqueles que não fazem
parte do grupo social, mas que conseguem decifrar os códigos e as
representações, estes são os chamados criptanalistas. “Os criptanalistas
norte-americanos que durante a guerra liam mensagens secretas dos japoneses,
não eram os destinatários dessas mensagens. (...) e a tarefa do lingüista é
começar como criptanalista para acabar como o decodificador normal da mensagem”
(JAKOBSON, 1995, p. 23). É uma pessoa que não faz parte do meio, mas que, pela
investigação, passa a decifrar os códigos e a emitir novas mensagens, a partir
da informação recebida, ou seja, ele decodifica e recodifica em linguagem inteligível
às pessoas de interesse daquela mensagem.
Temos aqui duas questões: a função
e o poder contribuem para modificar a concepção de uma realidade. Especialistas
em folclore e cultura popular podem ser folkcomunicadores, mas nem todos
assumem essa função perante a sociedade, enquanto líderes de opinião e especialistas,
que traduzem o habitus, o modus vivendi, a doxa, de determinadas culturas e etnias. E, por conhecer, pode
através do seu discurso promover o esclarecimento de determinados assuntos
naqueles contextos específicos e promover a paz, ou uma mudança de opinião e
atitude, em relação à questão social problematizada. O Folkcomunicador é, por vezes,
levado aos meios massivos de comunicação, sejam eles rádio, televisão, entre
outros, para explicar porque e como acontecem determinados fenômenos em âmbito
popular, para levar à sociedade assuntos que precisam ser discutidos, pois
todos fazemos parte do espaço social da cidade, ou estado ou país, dependendo
do âmbito da problemática. São comentaristas de escolas de samba, escritores,
professores, líderes de opinião de determinada temática popular, que entendem
de traços específicos da cultura popular e do folclore e conseguem interpretar
os códigos, tornando-os inteligíveis a todas as classes sociais, promovendo o diálogo
sobre problemáticas sociais, através dos meios massivos de comunicação, aos
órgãos de competência que de fato tem o poder de mudar tal situação.
Assim, cabe a Folkcomunicação não
somente decifrar os códigos e descobrir o conteúdo informacional, que estava
codificado através de outras linguagens (códice azteca, festas populares,
expressões da religiosidade popular, pinturas rupestres, ritos, mitos,
linguagem conotativa ou figurada, enfim), mas também trazer à luz as relações
estabelecidas, identificando os elementos do processo comunicacional: o
emissor, o receptor, além dos contextos de produção e o lugar de fala do
sujeito, e de recepção, averiguando os processos comunicacionais, levando-se em
consideração as variáveis dos processos, como a doxa, que é o filtro pessoal,
como também, o surgimento de ruídos técnicos ou semânticos, buscando, posteriormente,
verificar se o efeito desejado pelo emissor foi alcançado, através do feedback,
ou seja, averiguar se houve “mudança de atitude” do receptor.
Artigo completo: FOLKCOMUNICAÇÃO: por uma teoria da comunicação cultural. Revista Internacional de Folkcomunicação – Volume 1 – 2011.
Disponível em: http://www.revistas.uepg.br/index.php?journal=folkcom&page=article&op=viewFile&path%5B%5D=1398&path%5B%5D=970
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