sábado, 24 de março de 2012

O Folkcomunicador – um mediador


O papel dos agentes de folk é traduzir os códigos indecifráveis às pessoas menos letradas, os significados de mensagens veiculadas pelos meios de comunicação de massa, a pessoas que não decifram os códigos da cultura de elite e transmitir a informação decodificada de maneira acessível e inteligível.

A folkcomunicação é, por natureza e estrutura, um processo artesanal e horizontal, semelhante em essência aos tipos de comunicação interpessoal já que suas mensagens são elaboradas, codificadas e transmitidas em linguagens e canais familiares a audiência, por sua vez conhecida psicológica e vivencialmente pelo comunicador, ainda que dispersa (BELTRÃO, 1980, p.28).

          Assim, diferentemente do agente de folk, o trabalho do folkcomunicador é ser um decifrador de códigos, que consegue decodificar os códigos da cultura popular de determinada localidade ou região, além de recodificá-los, em um novo sistema de códigos e sinais, considerando o contexto vivencial do emissor e do receptor, tornando a mensagem inteligível à audiência. Porque do emissor e do receptor? Porque uma palavra pode mudar de sentido de uma de uma região a outra, ou adquirir novos significados, assim, uma palavra que tem um determinado sentido no contexto do emissor, pode não significar nada ao receptor, se este não conhece o contexto do emissor e suas determinações. Assim, é necessário a re-significação com a utilização de outro sistema de códigos inteligível para o público alvo. Explico: o símbolo da cruz suástica só significa àquele que conhece aquele símbolo e a carga simbólica expressa por intermédio dele, além de conhecer a realidade contextual do seu surgimento, ou seja, das condições de produção do discurso daquele símbolo; assim o Folkcomunicador é conhecedor do profundo significado do símbolo em sua realidade contextual, o peso semântico que tem aquela imagem, ou seja, caso contrário, o código imagético torna-se indecifrável.

Em função da estrutura social discriminatória mantida em nações como a nossa, a massa camponesa, as populações marginalizadas urbanas e até mesmo extensas áreas proletárias ou de subempregados se comunicam através de um vocabulário escasso e organizado em significados funcionais próprios dentro dos grupos. Quando se pretende transmitir uma mensagem a esses indivíduos, e especialmente quando seu conteúdo insere novo sistema de valores e conceitos, como no caso de campanhas mundanistas, é preciso “traduzir-lhes” a idéia, adequando-a aos esquemas habituais de valoração dos destinatários. O líder comunicador de folk é um tradutor que não somente sabe encontrar palavras como argumentos que sensibilizam as formas pré-lógicas que, segundo Levy Bruhl, Bastide, Malinowsky e outros cientistas sociais, caracterizam o pensamento e ditam a conduta desses grupos (BELTRÃO, 1980, p. 37-38, grifo nosso).

Ao decifrar os códigos, são esperados resultados, o feedback, o retorno, a ação do receptor em favor do emissor. Porém, se o receptor compreender além dos códigos, que está sendo dominado, que está sendo ludibriado, pode responder com um contra-discurso violento e agressivo, mas através de uma linguagem conotativa, simbólica, através, por exemplo, de representações simbólicas, em uma prática cultural, e às vezes não inteligível ao emissor, em muitos contextos de repressão. Quanto mais agressivo o governo opressor, quanto mais ameaçador, mais indecifrável é o código, pois pretende ser inteligível somente a um ou determinados receptores, não sendo inteligível ao dominador. Por isso, a folkcomunicação engloba os sistemas de comunicação popular existente em todas as culturas. São diferentes sistemas de comunicação popular, cuja teoria pode ser aplicada em outras realidades verificando a alta comunicabilidade da cultura popular de outros povos, decifrando códigos e linguagens antigos, ou em épocas de repressão, ou em situações de terceiro mundo, em que a comunicabilidade acontece através de um sistema de códigos próprio daquela região, inteligível apenas a um grupo seleto de indivíduos daquele sistema social, ou aos habitantes daquela localidade, região ou nação, dependendo da importância que aquela informação, que está sendo veiculada, tem para aquele determinado contexto vivencial.

Assim, queremos demonstrar, com isso, que, no sistema de comunicação popular há várias variáveis que devem ser consideradas, além do imaginário popular, o sistema de representações simbólicas e as práticas culturais, a valoração dos bens simbólicos, além do habitus, modus operandi e modus vivendi e o ethos social de determinada comunidade. São categorias sociais de Bourdieu que interferem no processo comunicacional e que, se desconsiderados, conseqüentemente, a mensagem não alcançara seu objetivo, ou seja, o feedback.

Nas práticas culturais, as representações simbólicas dão conta de realizar esse processo de expressão informativa, interpretativa e opinativa popular, que se realizam através de linguagens e códigos inteligíveis àquele grupo social. Porém há aqueles que não fazem parte do grupo social, mas que conseguem decifrar os códigos e as representações, estes são os chamados criptanalistas. “Os criptanalistas norte-americanos que durante a guerra liam mensagens secretas dos japoneses, não eram os destinatários dessas mensagens. (...) e a tarefa do lingüista é começar como criptanalista para acabar como o decodificador normal da mensagem” (JAKOBSON, 1995, p. 23). É uma pessoa que não faz parte do meio, mas que, pela investigação, passa a decifrar os códigos e a emitir novas mensagens, a partir da informação recebida, ou seja, ele decodifica e recodifica em linguagem inteligível às pessoas de interesse daquela mensagem.

Temos aqui duas questões: a função e o poder contribuem para modificar a concepção de uma realidade. Especialistas em folclore e cultura popular podem ser folkcomunicadores, mas nem todos assumem essa função perante a sociedade, enquanto líderes de opinião e especialistas, que traduzem o habitus, o modus vivendi, a doxa, de determinadas culturas e etnias. E, por conhecer, pode através do seu discurso promover o esclarecimento de determinados assuntos naqueles contextos específicos e promover a paz, ou uma mudança de opinião e atitude, em relação à questão social problematizada. O Folkcomunicador é, por vezes, levado aos meios massivos de comunicação, sejam eles rádio, televisão, entre outros, para explicar porque e como acontecem determinados fenômenos em âmbito popular, para levar à sociedade assuntos que precisam ser discutidos, pois todos fazemos parte do espaço social da cidade, ou estado ou país, dependendo do âmbito da problemática. São comentaristas de escolas de samba, escritores, professores, líderes de opinião de determinada temática popular, que entendem de traços específicos da cultura popular e do folclore e conseguem interpretar os códigos, tornando-os inteligíveis a todas as classes sociais, promovendo o diálogo sobre problemáticas sociais, através dos meios massivos de comunicação, aos órgãos de competência que de fato tem o poder de mudar tal situação.

Assim, cabe a Folkcomunicação não somente decifrar os códigos e descobrir o conteúdo informacional, que estava codificado através de outras linguagens (códice azteca, festas populares, expressões da religiosidade popular, pinturas rupestres, ritos, mitos, linguagem conotativa ou figurada, enfim), mas também trazer à luz as relações estabelecidas, identificando os elementos do processo comunicacional: o emissor, o receptor, além dos contextos de produção e o lugar de fala do sujeito, e de recepção, averiguando os processos comunicacionais, levando-se em consideração as variáveis dos processos, como a doxa, que é o filtro pessoal, como também, o surgimento de ruídos técnicos ou semânticos, buscando, posteriormente, verificar se o efeito desejado pelo emissor foi alcançado, através do feedback, ou seja, averiguar se houve “mudança de atitude” do receptor.

Artigo completo: FOLKCOMUNICAÇÃO: por uma teoria da comunicação cultural. Revista Internacional de Folkcomunicação – Volume 1 – 2011.

Disponível em: http://www.revistas.uepg.br/index.php?journal=folkcom&page=article&op=viewFile&path%5B%5D=1398&path%5B%5D=970

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